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Artigos científicos


16/10/2018 - Mortalidade em pacientes oncológicos graves


 

Um novo estudo do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino traz evidências dos fatores que levam pacientes oncológicos à morte depois de passarem por internação em unidades de terapia intensiva (UTIs). Os achados resultaram na criação do Oncoscore, uma ferramenta que ajuda a prever o risco de morte – e que pode ajudar os médicos a tomarem providências para evitá-la.

Nos últimos anos, a medicina tem observado um aumento da sobrevivência de pacientes com câncer, o que aumentou também o número de hospitalizações e internações em UTIs. Mas, apesar de recentes avanços científicos na área de oncologia e terapia intensiva, pouco se sabe a respeito dos fatores que contribuem para a mortalidade de pacientes oncológicos dentro do ambiente hospitalar e no período imediatamente após a alta.

Para preencher essa lacuna, o médico intensivista Marcio Soares, do Instituto D’Or, avaliou, em parceria com pesquisadores franceses, dados da internação de mais de mil pacientes com câncer em dois hospitais, um brasileiro e outro francês. Os resultados foram publicados na edição de março da revista Annals of Intensive Care.

Foram avaliadas características como gravidade da doença, tipo de câncer e necessidade de equipamentos de suporte. A maior parte dos pacientes incluídos no estudo sofriam de câncer de pulmão (19.2%), colorretal (16.9%), de mama (12.5%) e de cabeça e pescoço (11.9%). As complicações do quadro de saúde que os levaram à UTI foram sepse (ou infecção generalizada, 38.5%) insuficiência respiratória aguda (26.1%) e coma (7.6%).

Do total de pacientes incluídos no estudo, 41.3% morreram na UTI. Dos pacientes que receberam alta, 33% foram a óbito ainda no hospital. Entre os que receberam alta, a taxa de mortalidade quatro meses após a saída da UTI foi de 65.8%. Os números, embora altos, devem ser interpretados com cuidado. “Nos anos 1980 e 90, pacientes com câncer internados em UTIs tinham um prognóstico bastante ruim, com a mortalidade acima de 80%”, conta Soares. “Hoje, o cenário é outro: a evolução da oncologia e da medicina em geral permitiu uma melhora nos índices de mortalidade. Levando em conta a grave condição em que esses pacientes se encontram, as taxas que encontramos no estudo são consideradas boas”.

 

Contribuição para a prática médica

Na segunda etapa do estudo, os cientistas buscaram identificar os fatores que mais contribuíram para o óbito dos pacientes. A mortalidade – dentro do hospital ou quatro meses após a alta – foi observada principalmente naqueles que, na UTI, apresentavam câncer de pulmão, extensão sistêmica da doença (metástase) e necessidade de suporte orgânico, como terapia de substituição renal ou hemodiálise.

Tendo em mãos os dados médicos de cada paciente, os pesquisadores elaboraram o Oncoscore, uma medida objetiva de predição de desfecho, ou seja, capaz de antever qual a provável evolução do paciente após a terapia intensiva. A medida varia entre 1 e 11, em que valores mais altos se referem a quadros mais graves.

Para cada paciente, são pontuados a presença de câncer de pulmão (2 pontos) ou outros tipos de câncer (1 ponto), a presença de metástase (2 pontos), a necessidade de ventilação mecânica invasiva (3 pontos), o uso de fármacos vasoativos ou ionotrópicos para melhorar a função cardiovascular (2 pontos) e a terapia de substituição renal (2 pontos).

Com esse sistema, foi possível predizer a morte dos pacientes com 74% de acurácia. O Oncoscore também possibilitou atribuir gradações de gravidade: para pacientes com resultados menores do que quatro, a mortalidade até quatro meses após a alta foi de 40%; com resultados entre quatro e sete, 70%; e, com resultados maiores do que sete, 87%.

A proposta de estratificar o risco de pacientes graves tem como objetivo final guiar a conduta médica. Nesse contexto, a definição de parâmetros que auxiliem na identificação de quais pacientes apresentam maior e melhor sobrevida após a terapia intensiva é extremamente importante e deve ser focada em estudos futuros. “Essas medidas são fundamentais para a elaboração de melhores cuidados para cada paciente, o que também impacta o planejamento do sistema de saúde que os atende”, conclui Soares.